Áudios mostram policiais civis pedindo propina para inocentar investigados por estelionato: ‘Se demorar, sua prisão sai’

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Áudios obtidos com exclusividade pela TV Anhanguera revelam uma conversa entre dois policiais civis e investigados por estelionato e agiotagem, em Goiânia. Na gravação, os policiais civis, que não tiveram a identificação divulgada, pedem propina para que os envolvidos sejam inocentados em inquéritos e, consequentemente, mandados de prisão não sejam cumpridos. Os agentes estão presos desde a semana passada, quando foram alvos de uma operação do Ministério Público Estadual de Goiás (MP-GO).

“Ninguém vai te prender ainda não, mas se você demorar sua prisão sai. Quantas pessoas já caíram com mandado de prisão na minha mão, agora mesmo na delegacia ‘Oh, você tá com mandado de prisão aqui’ e eu falei ‘não, vou te dar uma coisa. Procure um advogado, faz assim e tal e faz de conta que você não veio aqui!’”.

“A gente tem que conversar tudo pessoalmente, por quê? Se um dia acontecer qualquer coisa por causa do telefone, bobeira minha, né, conversa fiada minha, quem vai pra rua sou eu, o ferro maior é pra mim! Isso é motivo de cadeia pra mim!”, diz a policial.

A Polícia Civil disse que vai aguardar o posicionamento da Justiça e, caso seja comprovado a culpa dos policiais, vai tomar medidas cabíveis.

Os dois policiais civis, um homem e uma mulher, foram presos preventivamente no último dia 6 de setembro, suspeitos de pedir propina de R$ 30 mil para inocentar um investigado em um inquérito que apurava crimes de estelionato, em Goiânia. De acordo com o MP-GO, um dos agentes chegou a exigir dinheiro da vítima enquanto o órgão, bem como a Polícia Civil e a Corregedoria da corporação cumpriam mandados na delegacia.

Em outra conversa telefônica, o policial conversa com o advogado de um homem que também era investigado por agiotagem. Na gravação, ele afirma que a sala dele, no 4º Distrito Policial de Goiânia, está livre de grampos.

“E eu sento com ele lá dentro da delegacia que tem a minha sala, tá? Lá é tranquilo. Por que que é a minha sala? Por que lá não tem escuta, lá não tem filmagem, porque a gente sempre monitora isso”, afirma.

O advogado por sua vez, revela receio em negociar a propina. “É, eu vim aqui porque eu fiquei com medo de dar né”

Segundo o MP-GO, eles são policiais de primeira classe e têm mais de 10 anos de carreira na corporação. As irregularidades foram descobertas, segundo o órgão, depois que a investigação instalou escutas dentro do 4º Distrito Policial da capital, onde trabalham.

Segundo o promotor de Justiça Paulo Vinicios Parizzoto, as escutas não foram divulgadas porque a apuração é feita sob sigilo. Ele revelou que, após os agentes fazerem o pedido de propina, no valor de R$ 30 mil, negociaram o valor com o investigado, até chegarem a um acordo de R$ 10 mil.

“A promessa era a de que a vantagem indevida, exigida por estes agentes era de afastar ou manipular o direcionamento destes fatos para excluir as responsabilidades de uma das pessoas”, explicou.

A OAB, por sua vez, disse que abriu processo contra os advogados envolvidos no esquema e que, dentro de 30 dias, vai decidir sobre uma suspensão preventiva do registro profissional dos envolvidos.

Conforme o MP-GO, os envolvidos devem responder pelo crime de concussão, que é quando um agente público utiliza o cargo para exigir vantagem ilícita.

Policiais presos eram lotados no 4º DP de Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Policiais presos eram lotados no 4º DP de Goiânia (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Arapuca

Esta não é a primeira vez que a delegacia é alvo de uma investigação que apura a conduta dos policiais. Em agosto deste ano, seis agentes policiais, dois advogados, um homem que se passava por policial e um fornecedor de medicamentos foram presos durante a Operação Arapuca, do MP-GO em parceria com a Polícia Civil. Eles eram suspeitos de integrar um grupo que extorquia pessoas detidas em Goiânia.

“A organização se valia de indivíduo que se passava por policial civil, que andava armado, em viatura, e de policiais que captavam pessoas envolvidas em atos ilícitos e realizavam a prisão em flagrante. Ao invés de cumprir a lei, cobravam valores para que não fossem presas”, disse na época o promotor de Justiça Leandro Murata.

Também foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão como parte da investigação do Grupo Especial de Controle Externo da Atividade Policial (GCEAP) e do Centro de Inteligência do MP. As ações ocorreram na capital e em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana.

De acordo com os promotores, o núcleo da organização estava no 4º Distrito Policial, no Setor Bueno. O delegado responsável pela unidade é Eli José de Oliveira, mas não há indícios do envolvimento dele no esquema, segundo as investigações.

O delegado disse ao G1 que não tinha conhecimento das irregularidades. ” Não sei o que está se passando direito, mas o nosso trabalho é sério, honesto e duro no combate à criminalidade. Se eles faziam a sujeira deles, era fora da delegacia, a gente não tinha conhecimento que esse falso policial usava nossa viatura”, afirmou.

Operação Arapuca prende policiais civis, advogados e falso agente em Goiás (Foto: Paula Resende/G1)

Operação Arapuca prende policiais civis, advogados e falso agente em Goiás (Foto: Paula Resende/G1)

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