Ceres: Falha humana deve ser investigada em acidente que feriu 4 em parque de diversões

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Depoimentos de vítimas e especialistas apontam que o acidente no Tecnopark, o parque itinerante instalado na 17ª Feira da Indústria e Comércio de Ceres (Feicer), foi causado por uma falha humana. A tragédia, que feriu quatro adolescentes na madrugada do dia 26, teria ocorrido em consequência de uma trava de segurança que não foi fechada corretamente. Das vítimas, três continuam internadas, sendo que uma delas está em estado gravíssimo.

As quatro adolescentes estavam no brinquedo radical Surf, formado por assentos enfileirados lado a lado que giram em torno de um eixo. As travas do brinquedos são fechadas manualmente por um dos operadores do parque, que trava a barra de aço que fica entre as pernas e a cintura de quem senta. De acordo com os testemunhos dados pelas vítimas, Anderson Amorim já havia feito esse procedimento enquanto Thatiely Carvalho Evangelista e Mariane Oliveira Dias, 16, estavam sentadas. As meninas ansiavam ir uma última vez na atração e aguardavam a máquina ser ligada. Neste intervalo, Isabela do Amaral Vieira e Thalia Aparecida Pires, 16, apareceram, pedindo para ocuparem os dois assentos vagos ao lado das meninas. Assim, com o brinquedo vazio, Anderson destravou a barra e, quando as meninas se acomodaram, travou-a novamente.

Neste momento, segundo os depoimentos, pode ter ocorrido a falha. Ao fechar a trava pela segunda vez, já com as quatro adolescentes, a barra não apresentava mais a mesma firmeza.

O delegado responsável pelo caso, Matheus Melo, conta que, todos os depoimentos ouvidos até o momento apontam para a falha do operador. Contudo, segundo ele, não se pode dizer, com certeza, que essa teria sido a causa do acidente. “Os peritos já foram lá ontem (domingo), hoje (segunda) e voltarão amanhã (terça), para uma perícia complementar. Só com o resultado nós poderemos saber o que aconteceu, mas, até agora, tudo aponta que houve uma falha por parte do rapaz responsável pelo manuseio do brinquedo”, informa Melo.

Ele esclarece que o operador foi submetido a testes toxicológicos para a averiguação de ingestão de bebidas alcoólicas ou outras substâncias. A Polícia Civil aguarda os resultados.

Engenheiros do Departamento Técnico do Conselho Regional de Engenharia (Crea) estiveram no local na tarde desta segunda-feira (27) para fazer uma avaliação das instalações do Surf. Segundo o técnico Jefferson Carneiro, não há nenhuma impressão evidente que aponte para alguma falha ainda, segundo ele, é preciso esperar as verificações serem finalizadas.

De acordo com a Prefeitura de Ceres, os laudos apresentados pelos donos do parque apresentavam todas as exigências de funcionamento. “Eles apresentaram o Certificado de Conformidade dos Bombeiros, laudo de engenharia assinado por um profissional da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), estava tudo certo”, afirma o advogado da Prefeitura de Ceres, Rafael Barreto. A Polícia Civil confirma a legalidade dos documentos de funcionamento. “No que avaliamos até o momento, a documento está dentro da legalidade”, informa o delegado Matheus Melo.

Interdição

Em outubro de 2017, o Tecnopark foi interditado pelo Ministério Público de Ceres. A decisão judicial obtida pelo Ministério Público afirmava que o parque não tinha condições de funcionamento por ser considerado inseguro para os usuários. Fotos anexadas ao processo mostravam que brinquedos estavam fixados sobre pedaços de madeira e tijolos.

O promotor de justiça, Marcos Rios, disse que o acidente envolvendo as jovens foi uma “tragédia anunciada”. Vamos apurar as responsabilidades sem precipitação. Estamos diante de uma situação de dolo eventual. Alguém assumiu colocar vidas humanas em risco”, denuncia.

Estado de saúde de Isabela oscila 

O caso de Isabela do Amaral Vieira, 16, é o mais grave das quatro adolescentes. Ela permanece sedada, respirando com a ajuda de aparelhos no Hospital de Urgências de Anápolis (Huapa). Em sua queda, Isabela foi uma das que acabaram em baixo do brinquedo Surf, que passou por cima da menina, causando traumatismo craniano, várias lesões na coluna e hemorragia interna. Ela foi a última a ser arremessada de seu assento e a vítima que foi atingida de maneira mais grave. 

Desde que fez a cirurgia para retirada de um rim e parte do intestino, procedimento realizado em consequência de complicações causadas por uma hemorragia, o estado da menina tem oscilado. A tia de Isabela, a dona de casa Divina Gonçalves do Amaral Rodrigues, 50, conta que a família está toda mobilizada para ajudar a adolescente a sobreviver à tragédia. “Desde que isso aconteceu a gente tem se revezado em ir ficar com ela lá em Anápolis”, conta.

O irmão de Isabela, Roger do Amaral Vieira, 18, que estava acompanhando a caçula no evento, relembra que a esperava sair do brinquedo em um banco próximo ao local. “Quando eu vi, fiquei paralisado. Não acreditei que aquilo estava acontecendo”, diz. Ele viu o momento exato em que a irmã foi arremessada para debaixo do brinquedo e a estrutura passou por cima de Isabela. Roger conta que, assim que o brinquedo voltou a girar, Anderson saiu da cabine e puxou a menina, antes que ela fosse atingida novamente. 

“Ela chegou a ficar sem respirar quase um minuto e depois voltou”, relembra. “Foi um suspiro longo e depois a respiração dela ficou curta de novo. Foi muito triste ver ela daquele jeito”.

Susto

Na manhã de segunda-feira (27), o estado da menina chegou a piorar. “A pressão dela subiu muito, os médicos ficaram quase o dia todo pra tentar normalizar”. Contudo, o dia terminou com uma boa notícia. Isabela tem reagido bem a medicação e sua pressão voltou ao normal, dizem os médicos. 

Segundo ele, ainda não se sabe muito sobre as fraturas na coluna da menina. “O que nós sabemos é que são muitas”, diz Roger. “A prioridade é que ela sobreviva a isso. Depois que ela estiver estabilizada, aí é que a gente vai olhar esses problemas. Queremos ela viva primeiro”.

Barulho diferente

Thatiely Carvalho Evangelista, 16, foi a primeira a receber alta, na manhã de segunda-feira. Ela conta que, quando Anderson Amorim, operador responsável pelo funcionamento do Surf, travou a barra de segurança, ela estranhou o barulho feito pelo equipamento. “Primeiro sentamos só eu e a Mariane. As outras duas meninas chegaram depois que ele já tinha fechado”. Segundo ela, Anderson estava esperando mais pessoas para dar início ao funcionamento do brinquedo.

“Quando elas vieram, ele abriu e depois travou de novo. Foi nessa hora que eu vi que o barulho foi diferente. Não tinha travado direito”, relembra. Sem dar muita atenção, as amigas continuaram sentadas. Só depois, com o brinquedo já em movimento, é que Thatiely percebeu a gravidade do que tinha acontecido. “Na primeira volta, a barra me jogou pra cima”. A adolescente conta que passou cerca de 5 minutos lutando para permanecer no assento, enquanto o brinquedo balançava. “Eu fiquei forçando a barra pra baixo, pra gente não cair e gritando pro moço parar o brinquedo, mas ele não ouviu”, conta.

Nas últimas voltas, momento em que o Surf ganha mais velocidade, a jovem não aguentou mais segurar e foi arremessada para fora do brinquedo, seguida das outras três meninas.

A mãe de Thatiely, a empresária Tatiane Agnes de Carvalho Evangelista, 36, diz que viveu momentos de pânico. “Na hora eu estava dentro da feira. Eu senti meu coração apertar, do nada bateu uma tristeza e eu resolvi ligar pra ela pra nós irmos embora”, conta a mãe. “Liguei três vezes, na terceira o namorado dela atendeu contando que ela tinha caído do brinquedo. Aí eu já fui correndo, desesperada”, explica.

A jovem sofreu escoriações leves e recebeu alta na manhã desta segunda-feira. “Nasci de novo. Em comparação as outras meninas, não aconteceu nada comigo”, agradece. “Nunca mais entro em um brinquedo desses de novo”.

Preocupação com a amiga

Mariane Oliveira Dias, 16, que estava sentada ao lado da amiga Thatiely, não teve a mesma sorte. Ela foi arremessada para o lado de fora do brinquedo, caindo de uma altura de cerca de cinco metros. Mariane teve duas fraturas; uma no pulso direito e outra no tornozelo esquerdo, além de cortes na nuca e barriga.

“Quando a Thatiely falou da trava, foi a Mariane quem deu a ideia das duas pressionarem a barra para baixo, pra não caírem”, conta a mãe da menina, a funcionária pública Joana Darc, de 49 anos. Segundo ela, as duas meninas gritaram muito para que o operador parece o brinquedo. Elas também avisaram Thalia e Isabela sobre o que estava acontecendo, mas as meninas, que não haviam percebido a trava solta, pensaram que fosse brincadeira. “Elas acharam que era medo, né?! Que elas estavam só brincando”, explica Joana.

Apesar da gravidade da queda, Mariane passa bem

“Ela está conversando, comendo. Ainda está reclamando de algumas dores, mas a situação desta segunda-feira pra hoje já melhorou bastante”. Joana conta que, na hora do acidente, Mariane perguntava muito pela amiga. “Elas são muito ligadas. Quando ela chegou aqui no hospital, ela só perguntava da Thatiely”, diz a mãe.

Por conta das fraturas, a menina precisou passar por duas cirurgias, uma delas, emergencial. Mais uma deve ocorrer em breve. A mãe explica que, dependendo de como for essa próxima operação, a filha deve ganhar alta em breve.

“O caso dela foi grave, mas ainda tem algumas meninas piores que ela, né? Então a gente tem é que agradecer”. Embora a recuperação esteja indo bem, Mariane ainda está muito abalada com a fatídica noite. Joana conta que ela tem muitos pesadelos durante a noite e anda muito assustada. Além disso, tem, frequentemente, insights sobre o ocorrido. “Foi muito traumático pra ela”, diz.

Ali, na rotina dura do hospital, mãe e filha tentam virar a página do dia mais assustador de suas vidas.

Em busca de um desconhecido

Ao ser arremessada, Thalia Aparecida Pires, 16, sofreu uma fratura exposta na perna esquerda e bateu a bacia contra a estrutura do brinquedo. Ela continua internada no Hospital Ortopédico de Ceres.

Sua mãe, a advogada Leidiane Pires, diz que a filha está inquieta para saber os resultados dos exames. “No primeiro exame, apontou uma pequena lesão na região da lombar, agora nós faremos um segundo para confirmar o que é. Se não for nada grave, ela ganha alta na terça ou quarta-feira”, explicou Leidiane.

Por conta da possível lesão, Thalia tem que ficar deitada e não pode se movimentar. “Até agora ela ainda não sentou, desde que chegou, só deitada, com a perna pra cima”, explica a mãe, que tem tentado ajudar a filha a lidar com a situação. “Eu expliquei que o médico disse que ela vai ficar um bom tempo sem andar”. Por conta da fratura exposta, Thalia precisou passar por duas cirurgias emergenciais e, após o resultados dos novos exames, uma segunda definitiva será marcada.

Embora a situação da filha ainda seja delicada, Leidiane diz que, até agora, não houve um dia sequer que não agradeceu pela vida da filha. “O jeito que eu encontrei ela foi assustador demais”, relembra. Com a queda, Thalia gritava muito de dor e, por conta do osso exposto, sangrava muito, também, conta a mãe. “Eu não estava lá, ela foi com o pai. Quando eu cheguei, tudo já tinha acontecido”, disse.

Leidiane pontua que, para além de zelar pela recuperação da filha, ainda precisa encontrar o rapaz que ela acredita que foi quem salvou a vida da filha. “Ela foi parar em baixo do brinquedo com a queda e, quando ela caiu, um rapaz que estava perto puxou ela lá de baixo”, detalha, emocionada. “Eu preciso encontrar esse rapaz e agradecê-lo, porque se não fosse por ele, a situação da Thalia estaria até pior do que a da Isabela. Eu não o conheço, só sei que o nome dele é Miguel”. E manda o recado. “Obrigada, Miguel”.

Preocupação com a amiga

Mariane Oliveira Dias, 16, que estava sentada ao lado da amiga Thatiely, não teve a mesma sorte. Ela foi arremessada para o lado de fora do brinquedo, caindo de uma altura de cerca de cinco metros. Mariane teve duas fraturas; uma no pulso direito e outra no tornozelo esquerdo, além de cortes na nuca e barriga.

“Quando a Thatiely falou da trava, foi a Mariane quem deu a ideia das duas pressionarem a barra para baixo, pra não caírem”, conta a mãe da menina, a funcionária pública Joana Darc, de 49 anos. Segundo ela, as duas meninas gritaram muito para que o operador parece o brinquedo. Elas também avisaram Thalia e Isabela sobre o que estava acontecendo, mas as meninas, que não haviam percebido a trava solta, pensaram que fosse brincadeira. “Elas acharam que era medo, né?! Que elas estavam só brincando”, explica Joana.

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