Goiânia tem pior taxa de isolamento após restrições

0
31

Goiânia registrou uma taxa de isolamento social de 38,2% na última quinta-feira (23), apenas quatro dias após a publicação do decreto estadual que flexibiliza as medidas de restrição para conter o avanço do novo coronavírus (Sars-CoV-2). É a primeira vez o índice fica abaixo de 40% desde o dia 21 de março, quando os goianos passaram a seguir com mais rigor as regras de distanciamento determinadas pelo governador Ronaldo Caiado (DEM).

Apesar de não haver um consenso, profissionais de saúde apontam ser importante a manutenção da taxa sempre acima de 50% para garantir os baixos índices de contaminação pelo vírus. Goiás é um dos Estados que apresenta as menores taxas de mortalidade da doença e uma das curvas mais achatadas de casos comprovados.

O governo diz acompanhar os indicadores divulgados diariamente pela empresa In Loco, com base em dados criptografados de dispositivos móveis, os mesmos citados nesta reportagem. Caiado tem dito em declarações à imprensa que pode rever a flexibilização caso os porcentuais de isolamento caiam significativamente.

O índice médio na semana entre os dias 19 e 25 de abril, em Goiânia, só não foi pior que o da semana anterior porque teve o feriado de Tiradentes (21 de abril) puxando o valor para cima. No entanto, logo após a data, a taxa só voltou a ficar acima de 50% no domingo. Desde o final de março, a capital tem enfrentado dificuldades para se manter num patamar considerado aceitável pelas autoridades sanitárias. Diferentemente do que acontece no interior, onde as cidades ajudam a manter os indicadores estaduais entre os melhores do País.

O biólogo, pesquisador e professor pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Thiago Rangel, diz ser possível afirmar haver uma relação entre o índice de isolamento monitorado por telefonia e o potencial de transmissão do vírus e que estudos apontam que o ideal mínimo é que o primeiro indicador fique acima de 50%. Segundo ele, o potencial do vírus, neste caso, fica em um nível aceitável para os recursos hospitalares existentes no Estado.

Ele destaca, entretanto, que estamos em um cenário novo, no qual o comportamento humano pode interferir nesta relação, e não há evidências ainda de quanto o uso de máscaras e cuidados maiores de higiene podem ajudar no impacto da flexibilização. Rangel destaca que é fundamental para o sucesso do relaxamento que o potencial do vírus em se espalhar se mantenha baixo.

A equipe técnica que assessora o governo de Goiás no combate à Covid-19, tenta fazer uma correlação entre os número de contágio da doença com os dados de isolamento dos dispositivos móveis. O grande desafio, segundo o professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), José Alexandre Felizola Diniz Filho, é que o índice de distanciamento é imediato e já os casos confirmados de coronavírus são dados que demoram mais tempo para serem processados. “Os sintomas demoram, tem o período para a incubação e da pessoa procurar o hospital, atraso por causa da demora do resultado dos testes”, explica o especialista.

Segundo Alexandre, o que acontecer nas próximas duas semanas vai demonstrar o verdadeiro impacto do novo decreto estadual com mais flexibilização e a falta de isolamento social. Ele pondera que há a hipótese das pessoas estarem saindo mais de casa, mas com mais cuidados e proteção. “Quando se entrou na quarentena, ela foi determinante, porque consigo avaliar uma coisa para a outra. Quando a gente volta, as pessoas voltam com um comportamento diferente. Esta é uma interpretação nossa, é quase uma esperança”, diz.

O professor defende que a população não pode achar que a flexibilização de algumas atividades significa que a pandemia do coronavírus já acabou. Embora Goiás tenha controlado os números de óbitos e internações até agora, a continuidade dos números baixos depende do comportamento da população. “Acho que a gente conseguiu frear talvez uma primeira onda, que pegou Manaus, pegou fortaleza… Tem que ver o tamanho da segunda onda.”

A doutora em saúde pública e epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Erika Silveira, afirma ser preocupante não apenas a queda no índice de isolamento como também as aglomerações notadas em pontos de embarque de ônibus, igrejas, salões de beleza e em supermercados. Ela sugere que se pense em formas alternativas de transporte para o trabalho, como uso de bicicletas ou que os empresários custeiem a ida dos empregados em veículos mais seguros. “É muito importante neste momento que as empresas tenham maior responsabilidade social.”

Novo decreto depende de se manter índice

Um decreto do governo estadual com mais restrições para o funcionamento do comércio e outras atividades econômicas deve ser elaborado caso o índice de isolamento da população fique abaixo do que estava na última quinta-feira (23), um dia antes do governador Ronaldo Caiado (DEM) afirmar que poderia fechar tudo novamente. Segundo o secretário de Desenvolvimento e Inovação, Adriano da Rocha Lima, desde então os índices têm melhorado.

“Se a situação se tornar pior do que quinta-feira, que foi o dia mais crítico depois do primeiro decreto, é bem possível que haverá medida restritiva. Mas de lá para cá, as coisas têm se tornado mais comportadas”, explica o secretário.

Além dos dados de dispositivos móveis, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento e Inovação (Sedi) avalia diariamente informações sobre a quantidade de passageiros no transporte público da capital, a movimentação de veículos nas rodovias e o consumo de energia elétrica residencial.

No último domingo (26), igrejas voltaram a realizar cultos e missas. Para seguir o decreto Estadual, cada reunião religiosa deve ter no máximo 30% da capacidade do templo ocupada, medir a temperatura dos fiéis, ter uma distância de dois metros entre cada pessoa e outras exigências de segurança.

“Fizemos fiscalização (das igrejas). Lógico que eles (fiscais) estão aprendendo também. Agora, aparentemente houve uma adesão. Estavam cumprindo realmente o que foi determinado. Mas a gente tem de continuar observando isso com cautela para ver se não extrapolação”, defende Rocha Lima.

O bispo da igreja Assembleia de Deus Madureira em Goiás, Oídes do Carmo, afirmou em culto na manhã do domingo, que Caiado teria dito para ele que houve discordância da equipe técnica do governo em flexibilizar as regras de distanciamento social para as igrejas. No entanto, o governador teria cedido aos pedidos de um grupo de pastores.

Adriano rebate a fala do bispo. “Na realidade, não é que teve resistência da equipe técnica. Ela nem analisou isso. Igreja não é considerada atividade essencial. Nenhuma atividade não essencial foi analisada pelo grupo técnico”, afirma o secretário. Ele defende que as igrejas foram reabertas de forma controlada como forma de apoio psicológico para a população.

A reportagem apurou que, embora o Relatório de Assessoramento Estratégico do Governo, que embasou o último decreto, não fale especificamente sobre igrejas, o grupo técnico responsável pelo documento classificava os templos religiosos no mesmo perfil de estabelecimentos de teatros, cinemas e estádios de futebol.

Referência

O estudo realizado para embasar o decreto estadual de distanciamento social é feito a partir de comparações entre medidas adotadas por cidades e Estados de outros países, como Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos, e localidades da Itália e Espanha. É o que explica o professor da da Faculdade de Administração da Universidade Federal de Goiás (UFG), Vicente da Rocha Soares Ferreira, que participou deste estudo.

Segundo ele, foi necessária esta comparação para se chegar a um consenso do que são as atividades essenciais. “O que nós fizemos foi buscar um equilíbrio entre preocupações da saúde, que precisam prevalecer neste momento, com o funcionamento das atividades econômicas essenciais e aquelas que fazem parte da cadeia das atividades essenciais”, explica o pesquisador.

Vicente da Rocha explica que foram analisados de forma criteriosa e cuidadosa todos os itens de um cadastro grande do IBGE com todas as atividades econômicas que existem. A flexibilização para a abertura dos salões de beleza e hotéis, por exemplo, foi um fator analisado. A equipe considerou que esses estabelecimentos permitem que as pessoas tenham acesso a cuidados pessoais e, no caso dos hotéis, possam ficar hospedadas para realizar atividades essenciais.

No entanto, Rocha esclarece que não é a equipe técnica que redige o decreto. “Existe um espaço discricionário do governador. Um relatório de assessoria é uma coisa, mas a decisão cabe ao governo, de seguir o relatório e também a amplitude, se vai seguir mais ou menos.”

o popular

Deixe seu comentário