Isolamento cai para menos de 40% e Goiás é o 2º pior do Brasil

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Goiás está há pelo menos três dias com índices de isolamento social abaixo dos 40% – patamar considerado o limite do “sinal amarelo” pelo governo estadual para adoção de medidas mais duras de restrição de mobilidade. Nos dias 4 e 5 de maio, a taxa ficou, respectivamente, em 38,3% e 37,3%, a segunda pior do País. É um porcentual abaixo da média nacional, algo que nunca aconteceu antes desde pelo menos a confirmação dos primeiros casos de Covid-19 no Estado. O governo estadual já adiantou que o indicador do dia 6 repetiu o baixo porcentual, mas afirma que, pelos próximos sete dias, vai seguir apostando no reforço na fiscalização para tentar aumentar o índice, principalmente em Goiânia e Anápolis, que há muito não conseguem ficar acima dos 50% em dias úteis.

Titular da Secretaria de Estado de Desenvolvimento e Inovação (Sedi), Adriano da Rocha Lima, diz que há muitas pessoas descumprindo os protocolos do decreto estadual 9.653, principalmente nos comércios de rua, e que ainda é um desafio equilibrar a reabertura das atividades econômicas com o fluxo de pessoas, principalmente no transporte coletivo. “Estamos em conjunto com as prefeituras adotando medidas muito fortes de fiscalização e vamos dar no máximo uma semana para ver se o nível se aproxima novamente acima de 40%”, disse.

O índice ideal de isolamento apontado por pesquisadores e profissionais da saúde para reduzir a taxa de transmissão do novo coronavírus (Sars-CoV-2) é de 50% para cima. Nota técnica desenvolvida na semana passada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) constatou que a adoção de medidas restritivas pelo governo estadual em meados de março e a adesão da população aos decretos da época fizeram a taxa de transmissão cair de algo em torno de 2,3 para 1,1 no começo de abril.

Para o biólogo e professor da UFG, Thiago Rangel, um dos três responsáveis pela nota técnica citada, os índices atuais colocam Goiás à beira de um abismo. “A população recebeu muito mal o decreto, entendeu errado, mas também porque faltou mais informação”, avalia.

Rangel diz, entretanto, que o momento atual é novo em relação ao vivido em março e abril porque o comportamento das pessoas é diferente nas ruas, fazendo uso, por exemplo, de máscaras, mas como não há precedentes para avaliar, não há como saber o impacto disso na relação com a taxa de transmissão do vírus. Além disso, ele lembra que outros lugares que flexibilizaram antes da hora tiveram um resultado bem negativo. “Estamos vivendo um experimento e nós somos as cobaias.”

Secretário dá 7 dias para indicador subir

O titular da Secretaria de Estado de Desenvolvimento e Inovação de Goiás (Sedi), Adriano da Rocha Lima, deu uma semana para que os índices de isolamento voltem a subir no Estado, pelo menos a um patamar acima de 40% e afirmou que, neste tempo, tanto o governo como as prefeituras vão intensificar a fiscalização para evitar aglomerações, como nos pontos de embarque de ônibus, e o devido cumprimento dos protocolos exigidos para a permanência das atividades citadas no decreto estadual que flexibilizou as medidas restritivas a partir de 20 de abril. Ele ressaltou a situação de Goiânia e Anápolis, que chamou de “muito crítica”. Questionado como a fiscalização mais rigorosa poderia influenciar na redução do volume de pessoas circulando nas cidades, Rocha Lima citou que há muitos estabelecimentos comerciais que estão funcionando sem autorização pelo decreto estadual e uma ação fiscalizadora nestes locais levaria ao fechamento dos mesmos e, consequentemente, na redução de pessoas nas ruas.

A aposta do poder público no trabalho dos fiscais é, principalmente, para corrigir o comportamento de cidadãos e comerciantes. No primeiro caso, para evitar que as pessoas circulem desnecessariamente e que respeitem o uso de máscaras e a etiqueta de higiene e distanciamento durante a pandemia. No segundo, para que os estabelecimentos funcionem exatamente como exige o decreto do governo. “Estamos vendo pessoas andando muito próximas umas das outras, muitas sem máscaras, movimentação onde não deveria haver”, citou o secretário.

Rocha Lima também cita o problema do transporte coletivo, cujas empresas não conseguem se adequar às exigências do decreto, o que tem levado a aglomerações de passageiros nos pontos de embarque. O secretário acredita que a decisão da Prefeitura de Goiânia de tornar obrigatório o escalonamento dos horários das atividades comerciais e serviços a partir da próxima semana resolverá o problema. Em entrevista ao POPULAR, ele chamou a atenção para o que acredita ser um número de usuários acima do que deveria, considerando as atividades que foram liberadas pelo governo. “Era para ter menos pessoas circulando.”

Assim como o governador Ronaldo Caiado (DEM), Rocha Lima afirma que no momento não está sendo discutida a possibilidade de lockdown nas cidades, medida mais extrema que veta a circulação de pessoas nas vias públicas e permite apenas o funcionamento de atividades essenciais. Mas destacou que um cenário mais crítico mais à frente pode trazer o tema na pauta.

Para ele, é importante agora encontrar um “equilíbrio” entre a circulação de pessoas e a flexibilização de atividades para evitar que haja um aumento no número de casos e de internações a ponto de comprometer o sistema de saúde. “Não é uma equação fácil de fazer.”

Pesquisador vê cenário trágico

Professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás (ICB/UFG), o biólogo Thiago Rangel, que participa de um grupo de trabalho de modelagem da expansão da Covid-19 em Goiás, avalia como trágico os índices de isolamento em Goiás e diz que o poder público teria alternativas além do reforço na fiscalização como anunciado pelo governo estadual e prefeituras. 

Para Rangel, faltou um melhor trabalho de conscientização dos goianos sobre a necessidade do isolamento e também a respeito de como se comportar após a flexibilização das medidas restritivas. De acordo com ele, Goiás não suporta no sistema de saúde o resultado de muitos dias com os índices de isolamento baixos. 

Até domingo, o Estado estava mantendo o indicador acima de 50%, com apenas um dia de exceção. Quando se observava os municípios, o índice só era alcançado por 34,5% destes.

O biólogo cita, porém, medidas adotadas por outros Estados e países para aumentar o isolamento social, como o fechamento de parques e espaços públicos, reduzindo as opções de mobilidade das pessoas, restrição de locais onde os cidadãos podem ir, fiscalização para impedir circulação aleatória nas vias públicas e até, de forma mais extrema, aplicação de multas. 

Rangel comenta que o contexto atual de baixo isolamento e desrespeito aos protocolos elaborados pelo governo estadual podem resultar num cenário ainda pior do que o configurado na nota técnica assinada por ele e mais dois pesquisadores da UFG na semana passada. 

Ele também destaca a importância de se seguir o decreto estadual conforme foi elaborado, o que não estaria acontecendo. “O decreto com a flexibilização foi planejado por uma equipe de 30 profissionais, os melhores do Estado, multidisciplinar, que avaliaram ponto a ponto o que poderia ou não abrir. O governador ainda incluiu outros pontos, como igrejas.” A fiscalização, neste caso, ajudaria com que os protocolos fossem respeitados.

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