Projeto que estuda proteínas se torna computador mais potente do mundo com contribuições para pesquisar coronavírus

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Um projeto de estudo de proteínas criado na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, há quase 20 anos se tornou o computador com maior capacidade de processamento durante a pandemia de coronavírus.

Chamado de Folding@Home (lê-se folding at home), ele faz simulações dinâmicas sobre o funcionamento de proteínas, principalmente sobre como elas “se dobram” ou se mexem, daí o nome “folding”, em inglês.

O apoio cresceu durante a pandemia, com o projeto estudando também o coronavírus. Os vírus também têm proteínas, que são usadas para suprimir nosso sistema imunológico, o Folding@Home entrou no combate à pandemia para entender as propriedades virais do Sars-Cov-2 e como podemos desenvolver algum tipo de tratamento para a doença.

O objetivo aqui é entender como se comportam as proteínas na superfície do vírus, para encontrar moléculas e substâncias que possam interferir na funcionamento do vírus. Até agora, o Folding@Home já tem descobertas em doenças como fenilcetonúria e alguns processos de evolução do câncer.

Contra o coronavírus, o projeto começou a simular o comportamento da proteína S, usada pelo vírus para reconhecer um hospedeiro (a célula) e se fundir a ele ao entrar.

Esse tipo simulação gráfica demanda muito processamento de computadores, mas pode ajudar cientistas a entender como se comportam doenças complexas como Alzheimer ou câncer.

Para conseguir processar todas essas informações, a iniciativa utiliza processamento dividido entre vários computadores ao redor do mundo. É preciso baixar um aplicativo e permitir que ele use o computador para fazer cálculos e enviá-los para os servidores do Folding@Home.

Na semana passada, Greg Bowman, cientista diretor do Folding@Home, afirmou que 3,5 milhões de computadores já estavam conectados à iniciativa, somando mais de 19 milhões de núcleos de processamento e mais de 700 mil unidades de processamento gráfico.

Segundo Bowman afirmou ao portal Arstechnica, eram 30 mil voluntários usando o software em fevereiro e 400 mil em março.

Mais potente que 500 supercomputadores

O Folding@Home ganhou força pela primeira vez em 2007, quando a Sony permitiu que o sistema do PlayStation 3 contribuísse com a iniciativa. Mas houve declínio de popularidade desde então, até o surgimento do coronavírus.

Com muita gente em casa e empresas sem funcionários por causa de medidas de isolamento mundo afora, o número de computadores distribuídos pelo mundo que passaram a ajudar o projeto cresceu.

Folding@Home dá informações de quantos núcleos está usando e qual projeto o usuário está ajudando. — Foto: Reprodução
Folding@Home dá informações de quantos núcleos está usando e qual projeto o usuário está ajudando. — Foto: Reprodução

É possível acompanhar isso pelo aumento na capacidade do projeto, que se tornou tão grande que superou os maiores supercomputadores do mundo.

Em março, Bowman já havia anunciado que a capacidade de processamento do projeto alcançou um exaflop — medida que serve para definir a capacidade de supercomputadores. Foi a primeira vez que essa medida foi alcançada e antes ainda de empresas gigantes desse setor, como IBMIntel ou AMD.

Em abril, a adesão ao projeto foi tão alta que ele alcançou 2.4 exaflops, mais rápido do que os 500 maiores supercomputadores do mundo somados.

O termo “Flop” se refere a um cálculo matemático com ponto flutuante — um método de cálculo que os computadores usam em suas operações. Algumas atividades dependem muito de cálculos desse tipo, principalmente na pesquisa científica ou na previsão do tempo.

Empresas deixam computadores contribuindo

Alguams empresas também passaram a ajudar no processamento dos projetos. Na lista estão a Nasa, acelerador de partículas LHC, a Petrobras, a fabricante de processadores gráficos Nvidia, o Google e até um time do youtuber de tecnologia Linus Tech Tips, que é a equipe com maior contribuição mensal atualmente no projeto.

A Globo também participa com computadores do time do Media Tech Lab, projeto que desenvolve soluções de tecnologia para serem aplicadas nos programas da emissora, e que por isso trabalha com computadores bastante potentes.

A iniciativa nasceu dentro do laboratório, com uma organização própria dos funcionários do Media Tech Lab. Atualmente o time está entre os 1,5 mil que mais contribuem para o Folding@Home — são mais de 250 mil ao todo. O ranking funciona como um estímulo para que as pessoas contribuam.

“Alguns [dos computadores] estão sendo usados para processar remotamente nosso trabalho, mas outros estão vagos. A partir daí começamos a disponibilizar os computadores para esse processamento. Nosso grupo todo se mobilizou”, explica Pablo Bioni, gerente de computação gráfica no Media Tech Lab.

Segundo Giulio Bottari, pesquisador sênior do Media Tech Lab, as pessoas que trabalham no laboratório ficaram sabendo da iniciativa voltada para a pesquisa sobre o coronavírus no Folding@Home e perceberam que os computadores do laboratório poderiam ajudar.

“No começo, iniciamos com duas máquinas e depois foi crescendo, e o pessoal foi incluindo as máquinas de casa”, conta. Agora, eles buscam outras pessoas interessadas em ajudar.

g1

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